Domir em São Paulo tem sido “a rollercoaster ride” que só fica mais e mais desesperadora a cada dia, ou melhor, a cada noite. Cada uma perdida, carrega toda a ansiedade gerada durante horas exaustivas de trabalho que culminam e terminam desiludidas com gritos ensurdecedores de xingamentos entre um jovem casal, pais prematuros de um bebê de um mês de vida. Criaturinha, que para se fazer ouvir, berra ainda mais alto que os pais. Toda minha ansiedade em ter um lugar silencioso onde se possa repousar durante algum período digno de horas se esvai pelos ares como os ronronares alucinantes das poderosas motocicletas que trafegam, vem e vão como brinquedos que esquecemos de desligar. Todas essas coisas que não se bastam em si, não se bastam em tê-las, há que mostrá-las, a qualquer custo, há que acordar o mundo pra dizer:
- ouçam miseráveis, o barulho que consigo fazer!
É bem verdade faz um ano, quase dois que estou morando aqui, mas nesse período a situação só tem piorado e minha tolerância cada vez mais diminuido. Primeiro foi uma lei extremamente funcional que impede o tráfego de caminhões antes das dez horas da noite. Logo, os caminhões trafegam após esse horário, e daí em diante, sendo realmente notados após a uma hora da manhã quando parte do barulho da cidade já foi abatido pelo cansaço ou simplesmente demonstra a total falta de comocão que os demais demonstram ao continuar fazendo o seu próprio barulho erraticamente.
São Paulo parece uma cidade abastecida por energéticos, açúcar, cafeína e drogas excitantes, as “speed drugs” dos anos setenta. Sempre há uma janela acessa, luz trêmula, palbebras em espasmos, com olhos esbugalhados, estriados de vermelho-sangue que buscam encontrar desesperadamente alento em alguma coisa, algo que pode estar por detrás de algum pedaço de concreto logo ali. Algum silêncio há de haver em alguma parte de céu que não foi feita por nenhum homem.
As pessoas se acotovelam entre gritos, gemidos, buzinas e outras manifestações sonoras. A cidade escarra sons sem sentido em todos os momentos em que podem se manifestar seus habitantes, em todas as horas, e tempo aqui é um referencial absolutamente relativo.
Os motociclistas vestidos em couro e suas motos aceleram alto e mais alto, para que todos ouçamos a descarga de seus barulhos, o lixo que lhes sai pelos canos, toda a impressão que não conseguem gerar em suas vidas. Competem com turbinas de aviões e carros “tunados” especialmente pra mostrar o som que podem fazer. Dormir talvez, seja algo completamente desnecessário, algo que há que se fazer apenas pela manutenção de alguma sanidade, mínima que seja, seja lá qual for o parâmetro.
Eu, que já não sei bem da minha, acredito que meu travesseiro abrigue um universo cosmopolita que grita efusivamente pra mostrar-se vivo, e que aumenta o timbre conforme avançam as horas, conforme avançam as noites, conforme aumenta a importância de ter tido algum descanso, conforme me vence o cansaço.
No paraíso, entre avenidas de prazer e aflicão conduzem motoristas educados a buzinar a qualquer momento ou situação, conduzem caminhoneiros rebitados que fream seus veículos em áreas residenciais em suas entregas pela madrugada.
Dentre todas e inúmeras experiências destaco as duas últimas noites que foram diferenciadas pelo embasbacamento com as revelações que tive. Talvez esteja descobrindo novos habitantes, todos esses loucos que vivem no meu travesseiro a me surpreender, ora ora. Os primeiros começaram com a serra-elétrica, mais ou menos quinze para as duas da manhã. Sim, ainda há árvores em São Paulo, e há que cortá-las, como disse uma amiga: “deixe o verde na Amazônia, São paulo é monóxido de carbono…”
é… melhor mesmo. Essa cidade asfixia nos dejetos gerados por seus habitantes, por todos nós. Mas, enfim, a serra elétrica de madrugada, com licença especial da prefeitura, realmente, é a maior prova de comprometimento com a qualidade de vida dos cidadãos. Talvez porque o comprometimento seja com a cidade, que tem uma vida própria, é um ser paradoxalmente inanimado. Quem sabe, se a rua fosse uma rua de intenso tráfego diurno, poderia entender a justificativa, mas uma rua residencial, não consigo perceber minha intransigência. Como agora tudo isso é parte das histórias ensurdecedoras do meu travesseiro, será algo que tenho que aprender a lidar.
Venham os banhos calmantes, as simpatias, pílulas de melatonina, os aromatizadores, os sons digitais da natureza, a rádio mec, os tampões de ouvido, os lençóis frescos, as janelas antiruídos, os isolamentos acústicos, venham todos, nas mais insuitadas combinações, todos e quaisquer recursos que possam tirar esses absurdos que insistem habitar minha fronha.
Ontem, hoje, já nem sei bem quando, toda noite a sorte é lançada, quem sabe hoje durmo um sono tranquilo!